Autor · O fundador do romance brasileiro
Messejana, Ceará, 1829 — Rio de Janeiro, 1877 · 1 obra na coleção
Romantismo brasileiro · indianismo · 1850–1877
José de Alencar (1829–1877) é o fundador do romance brasileiro — o escritor que, em pouco mais de vinte anos de obra, deu ao país recém-independente aquilo que faltava a uma nação nova: mitos de origem, paisagens próprias e uma língua literária que já não era a de Portugal. Romancista, dramaturgo, jornalista e político, Alencar não apenas escreveu o Brasil: em larga medida, ajudou a inventá-lo.
Nasceu em 1.º de maio de 1829, em Messejana, então um povoado nos arredores de Fortaleza, no Ceará. A família era de peso político: o pai, José Martiniano de Alencar, foi padre, senador e figura de proa do liberalismo nordestino; a avó, Bárbara de Alencar, é lembrada como heroína da Revolução de 1817. Em 1840, ainda menino, José acompanhou a família ao Rio de Janeiro, e foi nessa travessia pelo país — registrada depois em suas memórias — que se formou o olhar do futuro romancista para a vastidão e a diversidade do território brasileiro.
Estudou Direito em São Paulo, a partir de 1846, e concluiu o curso em Olinda, em 1850. Foram anos de leitura voraz — foi na república de estudantes de São Paulo que devorou os folhetins franceses de Balzac, Dumas e Chateaubriand que moldariam seu modo de contar histórias. De volta ao Rio, mais do que advogar, foi no jornalismo que encontrou sua voz: escreveu no Correio Mercantil e dirigiu o Diário do Rio de Janeiro, o jornal onde publicaria em folhetim seus primeiros romances. Foi nas páginas de jornal — em folhetins e crônicas — que estreou como ficcionista, aos poucos, quase de contrabando, antes de assumir de vez o ofício de romancista.
Alencar era um estreante quase anônimo na corte quando, em 1856, decidiu enfrentar o establishment literário do Império. O alvo era A Confederação dos Tamoios, poema épico de Gonçalves de Magalhães — nome então consagrado, fundador do Romantismo brasileiro e protegido pessoal de D. Pedro II, que financiara a edição. Assinando com o pseudônimo “Ig.”, Alencar publicou no Diário do Rio de Janeiro, entre junho e agosto daquele ano, uma série de cartas demolidoras: acusava o poema de escolher mal o gênero, de não ter musicalidade e de fracassar justamente no que prometia — pintar a natureza e o indígena brasileiros.
O escândalo foi imediato. Em defesa do poeta saíram Manuel de Araújo Porto-Alegre e o próprio imperador, que escreveu sob o pseudônimo “O amigo do poeta”. Um jovem desconhecido contra o monarca e a academia: a polêmica dos Tamoios foi, ao mesmo tempo, a estreia pública de Alencar e a prova antecipada de que sua carreira seria feita de coragem intelectual. Mais do que isso, foi um programa: ao dizer como o Brasil não deveria ser cantado, Alencar anunciava como ele próprio faria — e no ano seguinte, com O Guarani, começou a cumprir a promessa.
A obra de Alencar é uma cartografia deliberada do Brasil. Ele quis dar ao país um romance para cada uma de suas faces, e quase conseguiu. Nos romances indianistas — O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874) —, forjou o mito do indígena nobre e da origem mestiça da nação, numa prosa poética que soa como fundação. Nos romances urbanos — Lucíola, Diva, Senhora —, dissecou a sociedade do Segundo Reinado, o dinheiro, o casamento e a posição da mulher. Nos regionalistas — O Gaúcho, O Sertanejo, Til —, percorreu o interior e suas gentes. E nos históricos, como As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, voltou ao Brasil colonial. Poucos escritores abraçaram um projeto tão consciente: cada livro, uma peça do retrato de um país inteiro.
O Guarani (1857) deu a medida do fenômeno. Publicado em folhetim no Diário do Rio de Janeiro, foi devorado capítulo a capítulo por uma corte inteira e transformou o estreante da polêmica dos Tamoios no romancista mais lido do Império da noite para o dia. Décadas depois, o enredo viraria a ópera Il Guarany, de Carlos Gomes, estreada em Milão em 1870 — a prova de que o mito nacional que Alencar inventara já circulava pelo mundo. Poucos autores viram, ainda em vida, sua criação tornar-se símbolo de um país.
Se o indianismo lhe deu o mito, foi nos romances urbanos que Alencar se mostrou mais agudo como observador social. Senhora (1875) é o ponto alto: a história de Aurélia, que, enriquecida, “compra” de volta o noivo que a havia trocado por um dote — invertendo a lógica do casamento como transação e expondo, com ironia, a mercantilização do afeto na sociedade imperial. Em pleno século XIX, Alencar pôs no centro de um romance uma mulher que vira o jogo do poder econômico contra os homens. É uma das razões de sua permanência nas listas de vestibular: sob a capa do romance romântico, há uma crítica social que não envelheceu.
Antes mesmo da consagração como romancista, Alencar foi um dos grandes nomes do teatro brasileiro. O Demônio Familiar (1857), Mãe (1862) e As Asas de um Anjo levaram aos palcos a comédia de costumes e os dramas da escravidão e da família — Mãe é uma peça abolicionista anos antes de a abolição entrar na pauta nacional, e As Asas de um Anjo chegou a ser proibida pela censura imperial por sua ousadia moral. O teatro não era passatempo: Alencar via nos palcos do Ginásio Dramático, então tomados pelo realismo francês, o laboratório de uma dramaturgia nacional.
Paralelamente, fez carreira política. Deputado conservador pelo Ceará, tornou-se Ministro da Justiça de D. Pedro II entre 1868 e 1870, e ainda antes ganhara notoriedade como polemista político sob outro pseudônimo — o de Erasmo, com que assinou cartas dirigidas ao próprio imperador, cobrando-lhe reformas. A relação com o monarca, nunca fácil, azedou de vez: atribui-se a D. Pedro II o veto que barrou a indicação de Alencar ao Senado em 1869, mágoa que o escritor, orgulhoso, levaria consigo até a morte.
Alencar não trabalhou no vácuo. O indianismo que ele levou ao romance vinha da poesia de Gonçalves Dias, o maior poeta romântico do país, cujos versos sobre o indígena Alencar admirava mesmo quando fustigava Magalhães. E foi um jovem crítico chamado Machado de Assis quem, em 1866, publicou no Diário do Rio de Janeiro um artigo de rara generosidade saudando Iracema — gesto que Alencar confessaria, anos depois, ter sido uma das maiores alegrias de sua vida de escritor, no ensaio autobiográfico Como e Por Que Sou Romancista. A dívida seria retribuída de modo definitivo: quando a Academia Brasileira de Letras foi fundada, em 1897, vinte anos após a morte de Alencar, foi Machado — seu primeiro presidente — quem escolheu José de Alencar como patrono de sua cadeira, a de número 23. O maior escritor brasileiro do século elegia, como pai simbólico, o homem que ajudara a inventar o romance no país. Por isso o dia do nascimento de Alencar, 1º de maio, é hoje o Dia do Escritor Brasileiro.
A tuberculose, que se manifestou por volta de 1875, consumiu-o depressa. Uma viagem à Europa em busca de tratamento não o salvou. José de Alencar morreu em 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro, aos 48 anos, no auge da maturidade criativa — no mesmo ano em que publicara Senhora e O Sertanejo, prova de que a doença o encontrou trabalhando. Deixou uma obra vastíssima para tão pouca vida: mais de vinte romances, meia dúzia de peças, crônicas, polêmicas e ensaios, escritos em pouco mais de duas décadas. E deixou a sensação, partilhada por seus contemporâneos, de que o Brasil perdera cedo demais o homem que mais havia feito para lhe dar uma literatura própria. O filho, Mário de Alencar, seguiria as letras e viria a integrar a mesma Academia Brasileira de Letras que consagraria o pai como patrono.
Alencar é o tronco de onde parte boa parte da ficção brasileira. Machado de Assis, que o admirava e ao mesmo tempo o superaria por outros caminhos, reconheceu-lhe a fundação. Sua língua — que abrasileirou a sintaxe e incorporou o vocabulário indígena e popular, ao ponto de ser acusado pelos puristas de “estragar” o português — abriu justamente o caminho que o Modernismo, meio século depois, levaria às últimas consequências: quando Mário de Andrade e os modernistas de 1922 reivindicaram uma língua brasileira, colhiam o que Alencar plantara. As acusações de incorreção que sofreu em vida hoje se leem como elogio: ele escrevia num idioma que o país ainda estava aprendendo a ter. Ler Alencar hoje é assistir ao momento exato em que a literatura brasileira decide ser brasileira. O nome dele está no maior teatro do Ceará, em ruas de todo o país e, sobretudo, na origem de quase tudo o que veio depois.
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